É preciso repartir o lucro
Os últimos meses foram exemplares em termos de baixo reconhecimento do trabalho sério, incansável e inquestionável dos pecuaristas brasileiros em busca da melhor genética, da alimentação correta, do necessário controle sanitário, do manejo mais apurado. Em poucas palavras: investimos como nunca; fomos pessimamente remunerados como sempre.
Paulo de Castro Marques
O Brasil vem de recordes seguidos na exportação de carne bovina. Foram 1,2 milhão/t (2004), 1,35 milhão/t (2005) e 1,5 milhão/t, em 2006. Em valores, o resultado também tem sido espetacular: segundo a Abiec, entidade que reúne os frigoríficos exportadores, somente no ano passado, a receita superou os US$ 3,8 bilhões!
Palmas para nossos frigoríficos, que mesmo com as restrições internacionais impostas por mais de meia centena de países por conta da febre aftosa têm sido competentes e impulsionam a carne brasileira no cenário mundial. Sem dúvida, está aí uma lição de profissionalismo que não podemos ignorar.
Em uníssono, o discurso das cada vez mais fortes – e internacionalizadas – organizações frigoríficas do País é: “não atingiríamos esse resultado se não fosse o investimento dos pecuaristas em animais de qualidade genética, abatidos cada vez mais cedo, mais padronizados e com carne de padrão superior...”.
E eles estão certos. Mas onde está a valorização dos produtores por disponibilizar esses bovinos de qualidade que levam o Brasil a consolidar sua posição de maior exportador mundial de carne bovina e, como conseqüência direta, fortalecem economicamente umas poucas empresas?
Os últimos meses foram exemplares em termos de baixo reconhecimento do trabalho sério, incansável e inquestionável dos pecuaristas brasileiros em busca da melhor genética, da alimentação correta, do necessário controle sanitário, do manejo mais apurado. Em poucas palavras: investimos como nunca; fomos pessimamente remunerados como sempre.
A arroba do boi gordo chegou ao fundo do poço, atingindo os menores patamares dos últimos 35 anos – isso porque há poucas estatísticas anteriores à década de 70. E, por outro lado, as exportações batem recordes.
Aliás, com um agravante ao mesmo tempo extremamente positivo e esclarecedor: os preços internacionais subiram em média 5% e em alguns casos até 30%.
Desconheço atividade econômica que sobreviva durante muito tempo com uma realidade em que só alguns segmentos ganham. Especialmente quando os que mais sofrem estão na base da cadeia. Sim, porque sem bovinos precoces, pesados e com rendimento de carcaça não há carne para atender os contratos de exportação.
Avançando na cadeia produtiva: se os fornecedores de bois gordos não estão motivados, não investem no necessário melhoramento genético. E aí o refluxo é inevitável. Além das perdas econômicas já esperadas em termos de produção de carne, há um preocupante retrocesso na seleção dos animais, o que em outras palavras pode significar a perda de investimentos feitos durante décadas.
Claro, não sejamos alarmistas. A pecuária brasileira está longe de chegar a esse patamar. Ocorre que vejo com extrema preocupação o desânimo que ataca a atividade. Com o avanço de culturas agrícolas, especialmente a cana-de-açúcar, o criador não pensa duas vezes em arrendar suas terras. E, o pior, com rendimento líquido superior ao penoso investimento na produção animal.
O momento é de reflexão. Mais do que isso, é de pensamento coletivo. Não se trata de impedir o ganho de alguns, mas de defender a sobrevivência de muitos.
A Casa Branca Agropastoril faz a sua parte, investindo na melhor genética Angus, Brahman e Simental sul-africano para multiplicar a oferta de animais precoces, férteis e produtivos. Deste compromisso não abrimos mão. Aliás, estamos mais motivados do que nunca, inclusive buscando novas alternativas para o selecionador brasileiro. Tudo isso porque acreditamos na pecuária e sabemos que a crise é cíclica e, portanto, passageira. Além disso, como os frigoríficos estão nos provando: o mundo precisa da nossa carne.
Paulo de Castro Marques
Casa Branca Agropastoril

